• É preciso que você pense sobre isso...

      Por Roberto Shinyashiki

      Era seu último dia de vida, mas ele ainda não sabia disso. 

      Naquela manhã, sentiu vontade de dormir mais um pouco. Estava cansado porque na noite anterior fora se deitar muito tarde. Não havia dormido bem, mas mesmo cansado levantou.

       Lavou o rosto e fez a barba correndo, automaticamente. Não prestou atenção no rosto cansado nem nas olheiras escuras.

        “A vida é uma sequência de dias vazios que precisamos preencher”, pensou enquanto jogava a roupa por cima do corpo.

       Engoliu o café e saiu resmungando baixinho um “bom-dia”, sem convicção. Desprezou os lábios da esposa, que se ofereciam para um beijo de despedida. Não notou que os olhos dela ainda guardavam a doçura de mulher apaixonada, mesmo depois de tantos anos de casamento.

       Claro que ele não teve tempo de sorrir quando o cachorro, alegre, abanou o rabo. Deu a partida no carro e acelerou. Ligou o rádio, que tocava uma antiga canção do Roberto Carlos, “detalhes tão pequenos de nós dois...”

       Pensou que não tinha mais tempo para curtir detalhes tão pequenos da vida.

       Pegou o telefone celular e ligou para sua filha. Sorriu quando soube que o netinho havia dado os primeiros passos. Ficou sério quando a filha lembrou-o de que há tempos ele não aparecia para ver o neto e o convidou para almoçar. Ele relutou bastante: sabia que iria gostar muito de estar com o neto, mas não podia, naquele dia, dar-se ao luxo de sair da empresa. Agradeceu o convite, mas respondeu que seria impossível.

       Chegou à empresa e mal cumprimentou as pessoas. A agenda estava totalmente lotada, e era muito importante começar logo a atender seus compromissos, pois tinha plena convicção de que pessoas de valor não desperdiçam seu tempo com conversa fiada.

       No que seria sua hora do almoço, pediu para a secretária trazer um sanduíche e um refrigerante diet.

       Enquanto relacionava os telefonemas que deveria fazer, sentiu um pouco de tontura. Lembrou-se do médico advertindo-o, alguns dias antes, quando tivera o mesmo sintoma, de que estava na hora de fazer um check-up. Mas ele logo concluiu que era um mal-estar passageiro, que seria resolvido com um café forte, sem açúcar.

       Terminado o “almoço”, escovou os dentes e voltou à sua mesa. “A vida continua”, pensou e se preparou para o próximo compromisso Saiu para a reunião já meio atrasado.

       Entrou no carro, deu a partida e, quando ia engatar a primeira marcha, sentiu de novo o mal-estar. Agora havia uma dor forte no peito. O ar começou a faltar... a dor foi aumentando... o carro desapareceu... Os pilares, as paredes, a porta, a claridade da rua, as luzes do teto, tudo foi sumindo diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que surgiam cenas de um filme que ele conhecia bem.

       Era como se a vida estivesse rodando em câmera lenta. Quadro a quadro, ele via a esposa, o netinho, a filha e, uma após a outra, todas as pessoas de quem mais gostava.

       Por que mesmo não tinha ido almoçar com a filha e o neto? O que a esposa tinha dito à porta de casa quando ele estava saindo, hoje de manhã? A dor no peito persistia, mas agora outra dor começava a perturbá-lo: a do arrependimento. Ele não conseguia distinguir qual era a mais forte, a da coronária entupida ou a de sua alma rasgando.

       Escutou o barulho de alguma coisa quebrando dentro de seu coração, e de seus olhos escorreram lágrimas silenciosas. Queria viver, queria ter mais uma chance, queria voltar para casa e beijar a esposa, abraçar a filha, brincar com o neto... Queria... Queria... Mas não havia mais tempo...

       Uma das decisões mais importantes que eu tomei na minha vida foi aproveitar a vida porque sucesso sem felicidade é uma forma silenciosa de fracasso.

       E você? Como está vivendo a sua vida? Adiando encontros que mudariam o seu destino? Fugindo das decisões que vão definir o seu estilo de vida?

       O arrependimento não pode ser um companheiro na sua vida! Agora é o momento de ser a pessoa que você pode ser.

      Roberto Shinyashiki é conferencista, escritor e médico psiquiatra com doutorado em administração e economia.

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